domingo, 25 de novembro de 2007

Dona Leonor

No centenário de D. Leonor, 1958

O programa das comemorações incluía a inauguração de uma estátua em Beja, lugar de nascimento da Rainha. O escultor escolhido foi Álvaro de Brée, e eu fui incumbido de acompanhar a realização do trabalho.
Fui, por isso, muitas vezes ao estúdio. O primeiro projecto desagradou-me muito: uma rainha imponente, arrogante, majestosa A fonte de inspiração era, possivelmente, a estátua das Caldas da Rainha, da autoria de Francisco Franco, mas esta versão era ainda mais altiva e imperiosa Álvaro de Brée era um homem culto e compreensivo, sempre atento à razão dos outros. Aceitou, de bom grado, a minha crítica: o que se pretendia homenagear não era a Rainha de Portugal, esposa do rei D. João li, mas a fundadora das Misericórdias, a mater-dolorosa que viu morrer; na força da juventude, o único filho
que tinha, a esposa infeliz, viúva malfadada que se viu denunciada de cúmplice na morte do marido, a mulher caridosa cobrindo com seu manto todas as dores, enxugando as lágrimas, dando de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, como dizem os catecismos cristãos.
Serão após serão, o escultor ia ouvindo, paciente, as minhas razões, e com as espátulas ia-as transferindo para o barro obediente da maquete. E sobre o assunto eu mantinha toda a confidencialidade que evidentemente se impunha.
A inauguração do monumento foi um acta solene, em que estiveram presentes muitos membros do Governo. A estátua agradou muito. Vários oradores teceram os mais calorosos e comovidos elogios. O último a falar foi o escultor, que não era dotado do dom da eloquência.
Foi por isso muito breve, rude, sincero:
Agradeço muito os elogios que me fizeram, mas acho que não os mereço. Eu só fui mãe da estátua. O pai foi o Dr. José Hermano Saraiva, e até acho que ela sai mais ao pai do que à mãe.


In
Álbum de Memórias de José Hermano Saraiva
Anos 40 e 50


A ideia deste post já tinha barbas e estava na forja. Proporcionou-se amíude devido a um outro post.

3 comentários:

noctivaga disse...

Será mesmo como o JHS diz? Duvidar sempre porque, e não lhe retirando todo o mérito que tem como historiador, de vez em quando também se estica um bocadito.
Nunca fiar em tudo o que JHS diz.

Olhos de mel disse...

Eu não conheço o historiador, mas a estátua ficou belíssima e o post também!
Que sua semana seja de realizações!
Beijos

Zig disse...

Pode não se acreditar em tudo o que ele diz, mas dá gosto de o ouvir! Assisti um pouco às gravações desse programa, e é como ele diz, não há teleponto, está tudo na memória dele. Pois, este senhor com H grande (...) já tem 88 anos!!!